Eu quero ser uma velhinha de cabelo verde de Berlim

Quando me perguntam se eu vou ficar em Berlim para sempre eu nunca sei a resposta. Inclusive porque o para sempre sempre acaba etc. Mas tem uma hora que eu tenho certeza: quando eu vejo na rua uma velhinha de Berlim, ou uma senhora Berlinense. Aí penso que vou ter que ficar aqui para sempre só para ser como elas (ou quem sabe eu já sou hahah).

As mulheres com mais 50, 60, em Berlim simplesmente continuam sendo quem elas são. Elas não mudam porque passaram de certa idade. Elas continuam sendo elas mesmas. Se era punk? Continua punk. Era hippie? Continua hippie. Gosta de roupas minimalistas e de cabelo pintado de cores diferentes porque adora moda? Pois ela continua fazendo isso. Hoje mesmo eu estava pensando na vida no metro quando vi a moça do lado, ela tinha os cabelos brancos muito bem penteados, uma sombra azul, um batom escuro e usava uma calça de couro preta. Chique. Arrasadora. Alguns pontos a frente, entra uma moça cheia de ruga que nas ruas chiques de São Paulo seria, sei lá, xingada? Pois lá estava de cabelo comprido meio despenteado, uma calça jeans meio rasgada e justa e mochila.

Se as adolescentes aderiram com tudo aos cabelos coloridos, você não vai morrer de inveja da sua filha, não se você é uma senhora de Berlim. Você vai pintar o cabelo de verde, roxo ou verde porque sim, porque você quer, porque quem manda na sua vida é você. E, o que é melhor, ninguém, ninguëm mesmo vai olhar para você de cara feia.

As senhoras de Berlim, com seus cabelos coloridos, andam de bicicleta e namoram, sim, elas namoram. Meu deus, elas namoram!

O mesmo, fica o aviso, vale para os meninos. Eles podem envelhcer e continuar punks. E como eu amo os punks velhos de Berlim. E vale também para trans. Vejo muitas senhoras travestidas na rua, vestidas de senhoras mesmo. Ano passado, elas viviam na capa da revista queer mais importante de Berlim.

Não sei se eu volto, talvez eu volte, um dia eu volto. Mas a minha velhice, ah, vai ser aqui. Com a cor de cabelo e a roupa que eu bem quiser. E sem ser xingada na rua. Ufa!

[publicado originalmente em revistatpm.com.br]

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