Má notícia: o Muro de Berlim caiu (mas não completamente)

Você é do leste ou do oeste? Assim que comecei a vir para Berlim, fazia essa pergunta para todo mundo que conhecia. Recebi como resposta algumas reações inusitadas. Lembro de um vendedor de uma loja descolada que me falou com muito orgulho: “do oeste, claro, de Wilmansdorf”, com destaque para o bairro tradicional do OESTE.

Uma vez tive um date com um cara que me disse que era do LESTE. Eu disse que adorava as pessoas do leste. Ele ficou chocado, admirado e disse: “nossa, mas que bom”.

E uma época me choquei quando vi que algumas pessoas usavam a palavra OST para chamar aquilo que era, hummm, meio cafona. Um amigo admitiu. “Sim, para a gente que é do oeste o pessoal do leste acaba sendo meio os nossos primos pobres.”

Passei a achar que chamar alguém de OST era como chamar de suburbano. E decidi que nunca, jamais, usaria essa palavra. E nunca usei.

O muro de Berlin caiu há 25 anos. A comemoração foi ontem e eu fui lá ver os balões de gás subindo. Todo mundo na cidade estava muito comovido. Eram mais de um milhão de pessoas nas ruas. Eu queria muito ter estado aqui em 89 quando o muro caiu. Não consigo imaginar coisa mais louca e histórica.

Mas fico meio chocada quando vejo que ainda existem essas diferenças entre leste e oeste na mesma cidade.

ostberlin

As pessoas do leste ganham menos que as do oeste. É fato. E lembro de uma curadora de arte do leste me contando isso tensa e falando: “não é um tabu para mim, você pode perguntar tudo o que você quiser”. Acabei nem perguntando nada. Eu queria ter perguntado se ela sofria preconceito por, além de ser do leste, ser de Dresden, uma cidade do leste, no interior, que foi totalmente destruída depois da Guerra. Nem perguntei porque a resposta seria óbvia. Claro que sim. Mulher, de Dresden, no meio das artes. Caipira! O meio das artes de Berlim, o das galerias, é tão esnobe como o de São Paulo. Acho que é assim no mundo todo.

A queda do muro de Berlim foi um acontecimento incrível e lindo e Berlim é um lugar do caralho. Mas um lugar do caralho cheio de loucuras (como todos lugares, até os que não são do caralho.)

Eu, do Brasil, nem do leste nem do oeste, continuo tendo simpatia pelas pessoas do leste. Frequento um shopping perto de casa onde quem vai é o povo do leste e ninguém fala ingles. E também não tem turista.

Ontem, estava todo mundo junto e misturado. Mas na vida real as diferenças ainda existem sim. “É recente”, eu penso para me conformar. E, ah, é dado. É mais usual, ainda, uma pessoa do leste (ou do oeste) casar com uma pessoa estrangeira do que um do leste com um do oeste. Bizarro. Mas eu só posso observar.

Mas tudo bem! Viva os 25 anos da queda do Muro de Berlim!

[publicado originalmente em revistatpm.com.br]

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