O amor em um lugar onde não falta homem

Minha amiga tem nas mãos o telefone e fala: “bem, esse eu vou deixar para quarta, porque quinta eu marquei com aquele outro. E sexta eu prometi encontrar aquele com quem furei dez vezes. Tô paquerando ao mesmo tempo seis homens? Como pode? Isso nunca aconteceu na minha vida!”

Acontece que, se você mora em Berlim, e em muitas cidades do mundo deve ser o mesmo, você tem realmente um choque porque vou revelar uma verdade: aqui tem mais homem do que mulher. Segundo os dados oficias, o número é igual. No Brasil, existem cerca de 5 milhões a mais de mulheres. Mas eu não sou IBGE. Estou falando sobre a minha experiência empírica.

E garanto: aqui a gente tem muito mais opções de escolha no mercado amoroso do que os homens. Aqui, quem fica com medo de nunca mais arrumar ninguém na vida são eles (fiz uma pesquisa com amigas de idades variadas e concluí que todas no Brasil sofrem desse medo). Aqui, nós, mulheres, somos praticamente um homem pernambucano, aqueles que, como todos sabem, são os que mais fazem sucesso no Brasil.

A vida em um país onde existe mais possibilidade de escolha de um namorado, marido, sexo casual, caso, é uma outra realidade amorosa. Para começar, em geral aqui a maioria dos caras não procura uma mulher que seja 20 anos mais nova e tão magra e linda como a Gisele Bündchen. Eles procuram uma mulher interessante. Pronto. E quem disse isso não fui eu. Foi a musa cientista antropóloga Mirian Goldenberg. Em uma entrevista, ela me disse com todas as letras que o capital da mulher no Brasil era o corpo. Na Alemanha, era o todo. Sim, ela estudou a diferença de ser mulher na Alemanha e ser mulher no Brasil. Quem está falando é uma cientista. Não eu, uma palpiteira louca.

Então, partindo do princípio de que sim, existe mais homem disponível na Alemanha, eu concluo que:

No Brasil, quando temos um namorado, achamos que essa é tipo a nossa última chance na vida. Isso causa vários problemas. Por conta disso, aguentamos relacionamentos horríveis (porque é o que nos resta) e estamos o tempo todo em guerra com a nossa auto estima. “Ele não me quis, sou feia, ninguém mais vai me querer!”

Como assim mulheres de 40 anos ou menos achando que elas não têm mais chance no amor? Elas são loucas? Não. É que muitas vezes essa é a impressão que dá quando vemos nossos amigos da nossa idade namorando meninas 20 anos mais novas e olhando para nós como se não fôssemos atraentes. Ou velhas demais para eles, que têm a mesma idade que a gente.

Quando vivemos em um país onde temos mais homens interessados na gente pensamos: “ah, se ele não for legal eu caio fora”. Claro que a gente não deve aturar ninguém que a gente não gosta. Mas a liberdade de pegar a bolsa e ir embora fica maior, sim. Assim como a liberdade de não ficar com “quem nos resta”. Ou sozinha (o que costuma ser uma opção bem melhor).

Mas o mais importante. Aqui a gente nunca acha que alguem é a nossa última chance na vida, porque a gente sabe que não é. E meu sogro, viúvo, em um relacionamento sério com uma mulher viúva como ele de 76 anos há dois anos está aí para provar!

Tudo isso faz muita, muita diferença na vida. E lembro que um dia tentei explicar isso para um amigo macho brasileiro padrão (de esquerda, namorada 15 anos mais nova etc.) e ele me disse: então você vai para Berlim para arrumar homem? Não, imbecil. Eu vim para Berlim para ficar longe de idiota como você.

Nem é verdade. Eu vim para Berlim só porque eu quis. Mas essa resposta ficou engasgada na minha garganta. Eu precisava falar!

[publicado originalmente em revistatpm.com.br]

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