Por que a gente é tão louco por Berlim?

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“Eu vou gostar de Berlim?” Meu amigo teve um ataque de riso. “Não tem como você não gostar, não tem como, que pergunta ridícula!”. “Mas por quê’? Ele confinou rindo da minha cara e dizendo: “é a tua cara, tua cara, tua cara.”

Isso foi há oito anos. Vim. Amei. Obecequei. Passei a sonhar com Berlim todas as noites. Não tive mais paz. Eu tinha virado uma louca de Berlim. Saía com outros amigos também loucos por Berlim só para falar sobre a cidade. Fazia planos de como vir morar aqui. E, ano após ano, dava um jeito de vir para cá nas férias. Eu trabalhava só por essas duas semanas. Vivia por essa duas semanas. Eu era uma louca em estado terminal.

Em 2010 consegui ficar 3 meses. Ferrou. Me apaixonei mais. Peguei nevasca, menos 15. Mas andar sozinha em Berlim de madrugada na neve me fazia sentir uma coisa que nunca havia sentido nessa vida.

“Você, você que é aquela louca!!!!”, gritou o cineasta Karim Ainouz em uma festa em São Paulo.  “Me mandaram um texto seu sobre Berlim e eu pensei: “meu deus, quem é essa pessoa que é tão louca como eu? Preciso encontrar essa louca!”.

Karim mudou definitivamente para cá há seis anos. Na época, ele me dizia em uma padaria de Pinheiros: “meu deus,  que saudade  daquela voz do metrô.” A voz é a de uma mulher que manda a gente se levantar. E se você conhece Berlim e é louco pela cidade, você lembra dela.

Mas por que tanta obsessão?

Talvez seja o céu, que é, com certeza, o  mais bonito do mundo. Tanto que “Asas do Desejo”, do Wim Wenders, no original chama “O céu sob Berlim”.

Talvez seja o ar. Dizem que o “beliner luft” (ar de Berlim) causa coisas. Sério. Lou Reed, ao descer uma vez no Tempelhof , o antigo aeroporto que hoje é um parque, disse: “ai, é só descer aqui e respirar o berliner luft que já me sinto diferente.” E também tem essas companhias. Lou, Bowie, Nick Cave, Michael Stipe: todos loucos por Berlim.

Pode ser a liberdade. Berlim ainda é uma cidade onde as pessoas podem ser quem elas querem. Todos os dias vejo pessoas na rua que eu tenho certeza que só poderiam existir aqui. Em nenhum lugar do mundo aquelas pessoas estariam existindo com tranqüilidade. sem que fossem chamadas de malucas,  vagabundas. Falo de tipos com tatuagem na cara em forma de palhaço, os punks que pedem moeda na frente do supermercado, as pessoas que a gente não sabe se são homem ou mulher (e quem se importa?) e as minhas amadas velhinhas de cabelo verde.  

Os freaks do mundo todo se encontram por esse canto faz décadas (sim, antes da guerra Berlim já era um território de malucos como Walter Benjamin, Isadora Duncan…)

E, claro, a tranquilidade. Berlim tem um outro tempo. As pessoas não correm e não se empurram. Elas olham o sol. Elas deitam na grama. Elas pegam coisas que os outros deixaram para dar na rua (e nas escadas do prédio, agora mesmo têm uma sacola cheia de roupas de bebês na minha porta). Deve ser isso. Deve ser. Mas eu ainda não tenho certeza.

2 comentários Adicione o seu

  1. Karin Caetano disse:

    Eu amo tanto Berlim que me emocionei ao ler esse texto! Lindo, profundo e verdadeiro!

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